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out
09

A alucinação e a obsessão

Do blog do Alon:

O governo encontrou um meio para tirar o corpo fora da confusão em torno da fraude no Enem, o Exame Nacional do Ensino Médio. Pôs para circular uma teoria da conspiração, segundo a qual o vazamento e o escândalo teriam sido armados por gente interessada em prejudicar politicamente Luiz Inácio Lula da Silva e o PT. É uma teoria e tanto.

Esse meu lide pode ser criticado? Pode, e o governo tem os meios para mostrar que estou errado, que ele é vítima e não algoz no caso do Enem. Quando o presidente da República diz algo assim grave espera-se que as palavras sejam seguidas por atos. Então, de duas uma: ou o Palácio do Planalto prova que houve mesmo a tal conspiração, ou então concluiremos que alucinações pretenderam servir de biombo para a simples incompetência.

Incompetência movida a ambição, a que faltou a necessária prudência. Ambição sem prudência é um perigo. Qual a necessidade de fazer as coisas no atropelo? Só mesmo o desejo político dos personagens envolvidos, para quem 2010 poderia ser tarde demais para retirar da iniciativa o máximo de dividendos eleitorais. No fim, deu tudo errado. Como gosta de dizer o próprio Lula, mais uma vez a pressa acabou sendo inimiga da perfeição.

Mas, se a trapalhada do Enem foi um gol contra, o Planalto prepara na área social um passo importante à frente. Consolidar os programas sociais (todos, não apenas os de Lula) num código legal, a exemplo do que a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) fez com os direitos trabalhistas, no governo Getúlio Vargas. O presidente responde com isso a uma das principais críticas a ele: de que não teria se preocupado em institucionalizar avanços, especialmente nas políticas voltadas aos mais pobres.

Não que haja preocupação real com a eventual revogação das ações numa possível troca de guarda em Brasília. Essa é outra conversa que deve ser debitada unicamente na conta da eleição. O Estado repassar dinheiro aos pobres, direta ou indiretamente, pelos mais variados meios, virou dogma de administração pública no Brasil.

O que Lula deseja mesmo é uma marca histórica permanente no campo social. É a busca obcecada por um legado que não se desmanche fácil com a passagem do tempo, busca que é um traço estrutural nas atitudes do presidente da República nos últimos tempos.

Não tivesse o governo qualidades, não teria a aprovação medida em todas as pesquisas. Só que um dos principais ativos políticos de Lula é a figura dele próprio. Eis uma curiosidade: como o governo Lula será avaliado quando o presidente não mais tiver as câmeras e microfones à disposição para o autoelogio? Não estranha que ele esteja empenhado em adiar ao máximo a chegada do futuro. Mesmo quando faz isso indiretamente. Como na eleição que vem aí.


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