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LULA, O HOMEM DA MIMESE ARISTOTÉLICA

terça-feira, 17 de novembro de 2009 | 5:13

Não vi a tal entrevista de Lula na Rede TV, que rendeu dois pontos no Ibope na Grande São Paulo, segundo informou ontem Lauro Jardim. Integrava o grupo dos 98 que estava vendo outra coisa ou estava com a TV desligada. Pânico na TV, que veio em seguida, bateu nos 10 pontos. Não vi também. Segundo me contam, Sabrina Sato foi à Uniban de minivestido, e a moçada, no fim, parece não ter gostado muito… Entendo. Um leitor me manda o trecho da entrevista em que Lula chora ao falar da morte da primeira mulher, que estava grávida.

Vocês sabem certamente o que é a sensação do déjà-vu, não? Trata-se de uma maluquice qualquer do cérebro, ainda não devidamente explicada, que nos informa que uma coisa qualquer já aconteceu, que já tivemos aquela experiência; é como se a gente se lembrasse do que não houve — parece coisa de Fernando Pessoa de pileque, hehe. Pois é.

Estaria eu diante do déjà vu? Não!!! Aquele mesmo texto, com variações, com outras lágrimas, foi dito pelo próprio Lula, também diante das câmeras, em 2002. Até algumas imagens de poesia dramática coincidem. A diferença — ou nem tanto — é que o interlocutor era Duda Mendonça. Não quero nem especular sobre a dor da morte da mulher e de um filho. Seria indecoroso! Como foi indecoroso, e escrevi isso em 2002, que Lula tivesse sido convocado a lembrar isso diante das câmeras para conquistar votos.

Mas, como Lula é Lula, na entrevista de agora, contou que conheceu Mariza três anos depois, também viúva, e fez com ela um pacto: no dia de Finados, nenhum dos dois iria ao cemitério. É realmente espantoso!!! Desta feita, ele só se dispensou de fazer uma crítica ao sistema de saúde, a exemplo de sete anos atrás. Tornou-se uma vítima um pouco mais sofisticada. No filme que comoveu Elio Gaspari — e, segundo ele, comoverá as platéias e deixará as oposições chateadas —, a história será recontada milhares de vezes para milhões.

Ô, Gerald Thomas! Volte logo com seu blog para que possa escrever sobre processos de construção de personagem; como é que os atores são convidados, em abordagens digamos, convencionais, a recorrer à memória afetiva para compor os seus papéis.

Uma dor vivida diante das câmeras, com um propósito, nunca é uma dor genuína, mas processo de representação crível da realidade. Estamos diante da mimese aristotélica. E notem: não é assim só porque eu quero; porque decidi resistir a Lula. É assim porque assim são as coisas. Na concepção dramática aristotélica, uma situação precisa ser crível, ainda que não verdadeira. O falso, muitas vezes, convence mais do que a verdade. Não! Não me tomem por bruto! Não estou dizendo que o choro de Lula era mentiroso em 2002 ou em 2009. Ele realmente chorou. Lula é uma personagem, assim, aristotélica…

Na tal entrevista, o presidente especulou, conforme se noticiou, que o mensalão foi uma conspiração da oposição para dar um golpe no seu governo. Ah… Lula e sua memória afetiva merecem mesmo um tratado psiquiátrico. O mais formidável disso tudo é que o Duda Mendonça de 2002, que gravava as suas lágrimas para exibir a milhões de pessoas, era aquele publicitário que iria receber — ou já tinha recebido, não sei — alguns milhões de dólares no exterior como pagamento pela campanha eleitoral. Era parte do dinheiro arrecadado ilegalmente pelo partido. Antes mesmo de chegar ao poder. Mas, como vocês sabem, o mensalão não passou de um golpe… das oposições!!!

Entenderam como as coisas se compuseram? O publicitário que criava a personagem que recorria à memória afetiva para falsificar, segundo as exigências da mimese, uma ocorrência verdadeira seria parte da lambança ética do petismo, que Lula nega ter existido sete anos depois — não só isso: atribui tudo a uma conspiração dos adversários.

É… É uma pena que a popularidade de Lula não seja de 99%. Eu me sentiria ainda melhor em fazer parte de um miserável 1% que pudesse gritar: “Quem não conhece Aristóteles que te compre!”

Aí o Petralha rombudo diz: “O povo não conhece Aristóteles, rá, rá, rá”. Eles sempre dizem “rá, rá, rá”! Pois é… É por isso que compra gato por lebre e Lula por Lula.


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