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02
set
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VASCULHANDO O ORVIL – ALN – Capítulo IX

ALN SOB NOVA DIREÇÂO

foto de toledo

O início de 1970 encontra a ALN (Ação Libertadora Nacional) sob o impacto da morte de Carlos Marighela. Joaquim Câmara Ferreira – “Toledo” ou “Velho”(Foto) -, substituto natural de Marighela, desde o seqüestro do embaixador americano, estava em Paris fazendo contatos e buscando apoio para à luta armada.

Texto completo

Informado do momento crítico que vivia a ALN, “Toledo” resolveu voltar ao Brasil, via Cuba, o que lhe proporcionaria apoio junto às autoridades cubanas e contato com militantes do II Exército da ALN – grupo que terminou o curso de guerrilha em fins de 1969, concitando-os a voltar ao Brasil.
“Toledo” voltou ao Brasil em fins de janeiro de 1970 e, antes de sair de Cuba, concedeu uma entrevista à Rádio Havana, reafirmando os princípios revolucionários de Marighela. Essa entrevista foi considerada uma orientação aos militantes da ALN.

Durante a entrevista, “Toledo” confirmou que a revolução brasileira não tinha prazo fixo e que as ações de guerrilha urbana deveriam se intensificar com assaltos, atentados, seqüestros, ataques a quartéis, prosseguindo sempre num ritmo crescente. No campo, incitava os militantes a invadir fazendas, matar o gado e distribuir a carne entre a população, para angariar simpatia e com isso novos adeptos à causa da guerrilha rural.

Ainda na entrevista, “Toledo” afirmou que a morte de Marighela deveria ser vingada e, finalizando, relembrava que a união das forças revolucionárias deveria ser conseguida por meio de ações concretas.

O seqüestro do embaixador americano foi citado na entrevista como um exemplo a ser seguido, o primeiro passo para ações em “frente”- em conjunto com outras-, já que, nesse seqüestro, haviam atuado juntas a DI-GB, a ALN e o MR-8. As ações em “frente” sempre seriam admitidas em situações excepcionais.

“Toledo” vaticinava a união das organizações revolucionárias partidárias da luta armada.

Em março, “Toledo” estabeleceu tarefas para consolidar a organização: retomar a iniciativa nas cidades e incrementar a iniciativa no campo. Suspendeu a ida de militantes para Cuba, alegando a necessidade de mais revolucionários no Brasil, para incrementar a luta armada, e a existência, no país, de um grande número de militantes com curso de guerrilha no exterior. Vários militantes do II Exército da ALN já se encontravam atuando no Brasil, além de um novo grupo, o III Exército, que já estava sendo adestrado em Cuba.

A ALN tinha pressa para se reestruturar. No Uruguai, a organização, por meio de Carlos Figueiredo de Sá, tentava refazer o esquema que havia caído com a prisão de Frei Beto. No entanto, a prisão de Luis Carlos Rocha Gaspes, indicado por Carlos Figueiredo de Sá para manter o esquema ativo, novamente desmonta o esquema. Ele foi preso com gráficos contendo roteiros e localidades de fronteira que seriam usados no trânsito dos subversivos. Esse trânsito (entrada e saída) foi planejado por Apolônio de Carvalho, do PCBR e pelo ex-major do Exército Joaquim Pires Cerveira.

Da avaliação da documentação apreendida entendia-se que o comando da organização, incluindo o pessoal no exterior, estava sob a liderança de “Toledo”. Entretanto, os militantes que estavam em Cuba se rebelavam quanto à direção no Brasil. Desejavam a criação de uma direção em Cuba. Na tentativa de solucionar esse problema, foram definidas as voltas, ao Brasil, de João Leonardo da Silva Rocha e Ricardo Zaratini, visando à preparação de uma liderança que pudesse atuar em Cuba. “Toledo” desejava expandir a organização e para isso necessitava, cada vez mais, de militantes. Estava descontente com a falta de coordenação entre as ações do GTA (Grupo Tático Armado) e da Frente de Massas (que arregimentava novos militantes).

Enquanto se consolidavam as suas estruturas, sob a direção de seu novo líder, a ALN sofreu outro grande golpe. No dia 23 de outubro de 1970 Joaquim Câmara Ferreira ,“Toledo”, era preso pela equipe do Delegado Fleury e morria de enfarte.

A prisão de “Toledo” foi o resultado de um paciente trabalho dos órgãos de segurança, que detectaram a presença de Maria de Lourdes Rego Melo (Baixinha), sua companheira de “aparelho”.

Com o desaparecimento de “ Toledo” terminava o período de atuação monolítica da ALN, resultado da orientação centralizadora de seus líderes nacionais, Carlos Marighela e Joaquim Câmara Ferreira. Começava a contestação à linha política e à forma de atuação, por militantes do III Exército que se encontravam em Cuba, fazendo curso de guerrilha.

Mais cedo do que se poderia imaginar, a ALN se dividiria e dessa divisão surgiria o Movimento Libertador Nacional – MOLIPO . A causa dessa divisão era a falta de uma liderança carismática que a pudesse conduzir nos momentos do confronto armado.

Debilitada com as derrotas de 1969, a Coordenação do Comando Regional de SP – CR/SP – resolveu aderir à Frente de Mobilização Revolucionária – FMR-, composta pela Vanguarda Popular Revolucionária – VPR -, REDE, Partido Operário Comunista – POC – e Movimento Revolucionário Tiradentes – MRT –

Em janeiro de 1970, Flávio Augusto Neves Leão Sales integrou-se ao Grupo.

A partir da segunda quinzena de janeiro o Setor de Massas, encarregado de recrutamento de novos militantes, foi duramente atingido. Foram presos Miguel Nakamura e José Alprin Filho ( dirigente do setor operário). Em fevereiro foram presas Maria Luiza Locatelli Garcia Beloque, coordenadora do setor estudantil, e sua cunhada Leslie Denise Beloque.

O Grupo Tático Armado – GTA -, coordenado por Guiomar Silva Lopes, reestruturou-se com os remanescentes do grupo de Carlos Eduardo Fleury e com elementos que agiam na Guanabara. Pouco a pouco elementos cooptados para comporem a Frente de Massa – FM -, foram sendo cooptados para os GTA.

Esse mesmo grupo assaltaria no dia 2 de março a agência do União de Bancos Brasileiros, na Avenida Jabaquara; no dia 20 de março a agência do Bradesco, no Jaguaré; também assaltaria um soldado da Força Pública, nas proximidades do Ibirapuera, para “expropriação” de sua arma.

Participaram dessas ações: Hiroaki Torigoe, Venâncio Dias Costa Filho e José Carlos Gianini, supervisionados por Carlos Eugênio Sarmento Coelho da Paz “Clemente”, do Grupo Tático Armado – GTA.

As atenções dos órgãos de segurança continuavam focadas para o setor de massas.

No Rio foi preso Nelson Luiz Lott de Morais Costa, que abriu um ponto que teria com “Alencar”, em São Paulo. Na cobertura desse “ponto” “Alencar” foi preso e identificado como Gilberto Luciano Beloque, o coordenador do setor, dando seqüência à sua desarticulação.

Em seguida, também em São Paulo, foi presa Guiomar Silva Lopes e junto com ela, Sônia Hipólito, da rede de sustentação.

Por ocasião de sua prisão, Guiomar Silva Lopes tentou o suicídio, ingerindo substância desconhecida. Atendida no Pronto Socorro Santa Lúcia, por falta de vagas, foi transferida para o Hospital das Clínicas, onde ficou em observação.

Após algumas horas de observação, Guiomar, seguindo orientação do manual de Marighela, incutido nos membros do GTA, tentou, novamente, o suicídio, lançando-se pela janela do 4º andar do hospital. Por sorte, teve sua queda amortecida por um toldo, sobrevivendo com a bacia fraturada. Transferida para o Hospital Militar de São Paulo, restabeleceu-se sob intensa vigilância e pode responder por seus crimes.

Com a prisão de Guiomar, José Edézio Brianezzi assumiu a coordenação de um dos grupos do GTA e Carlos Eugênio Sarmento Coelho da Paz passou a coordenar o GTA como um todo, enquanto o outro grupo era liderado por José Milton Barbosa.

A ALN continuaria a praticar ações bastante violentas, mesmo depois da divisão que geraria o MOLIPO.

Próximo capítulo – Os “justiçamentos” de companheiros pela ALN

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