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30
set
09

Revista dos EUA mostra Rio de Janeiro à mercê de gangues

JANAINA LAGE
da Folha de S.Paulo, em Nova York (EUA)

Na semana do anúncio da escolha da sede da Olimpíada de 2016, a respeitada revista “New Yorker” apresenta reportagem de 12 páginas sobre a ação dos traficantes no Rio de Janeiro.

O retrato mostrado pela publicação é de uma cidade comandada por gangues, onde o poder público tem participação irrisória, incapaz de garantir a segurança da população.

O título da reportagem já indica o que o leitor encontrará nas páginas seguintes: “Terra de gangues – quem controla as ruas do Rio de Janeiro?”.

O autor, Jon Lee Anderson, jornalista de prestígio, é autor de biografia de Che Guevara e de livros sobre guerrilhas e sobre o Afeganistão.

O texto contrasta com a campanha do Rio aos Jogos Olímpicos, que explora as belezas naturais da cidade e o sucesso de políticas de segurança pública.

A partir da história de Iara, “subdelegada” de 31 anos e mãe de três filhas, que pertence ao Terceiro Comando Puro e trabalha para Fernandinho, o traficante Fernando Gomes de Freitas, comandante Morro do Dendê, favela na Ilha do Governador, a reportagem traça um painel da atuação do tráfico da cidade e da atuação da polícia.

O jornalista da “New Yorker” se encontrou com o traficante. Questionado sobre onde fica a linha entre certo e errado, responde: “Quem está decidindo?”

Anderson estima que existam hoje mais de mil favelas na capital fluminense. Em um panorama sombrio, a reportagem afirma que não há meios de escapar completamente da miséria do Rio de Janeiro.

O jornalista relata que os moradores do Morro do Dendê vivem sob a autoridade de um regime de fato, comandado pelo traficante e seu exército particular, um padrão que se repete por toda a cidade.

Na tentativa de traduzir para o público norte-americano o funcionamento do tráfico carioca, Anderson afirma que pelo menos 100 mil pessoas trabalham para traficantes, envolvidos em uma estrutura hierárquica similar à do mundo corporativo, com gerentes gerais, subgerentes e donos.

A reportagem descreve também as origens de algumas facções criminosas, como o Terceiro Comando Puro e o Comando Vermelho, este último nascido da mistura de criminosos comuns e presos políticos na prisão em Ilha Grande, no final da década de 70.

De acordo com o texto, mais de 20 anos após a restauração da democracia, não existem mais guerrilhas marxistas no país, apesar de vários ex-guerrilheiros ocuparem cargos no governo do presidente Lula.

“O Estado está praticamente ausente das favelas”, diz a reportagem, que compara os índices de mortes violentas do Rio com os norte-americanos.

Os policiais cariocas matam em média pouco mais de três pessoas por dia, mais do que o número de todo os EUA.

Para o chefe da Polícia Civil do Rio, Allan Turnowski, ouvido em julho para a reportagem, a situação do Rio de Janeiro hoje não é de calamidade.

“Se fosse, não haveria volta. E nós podemos. Isto aqui ainda não é Bagdá ou o México. Nós temos a capacidade de controlar qualquer parte da cidade que quisermos”, afirmou ele.
“O problema é que não podemos ficar para terminar o serviço”, completou Turnowski.




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