Arquivo para 27 de novembro de 2009

27
nov
09

Potências aumentam pressão sobre Irã; Reino Unido fala em sanções

da Folha Online

As seis grandes potências do mundo aumentaram a pressão sobre o Irã ao aprovar no Conselho de Governadores da AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica), em Viena, uma resolução de condenação ao seu programa nuclear– a primeira desde 2006.

A medida é uma clara mensagem ao Irã para que passe a cooperar com a agência nuclear da ONU, caso contrário poderá sofrer retaliações –como a imposição de novas sanções econômicas.

O texto exige que Teerã “suspenda imediatamente” a construção de uma nova fábrica de enriquecimento de urânio na cidade de Qom, cuja existência só foi divulgada em setembro.

A resolução aprovada — que será encaminhada ao Conselho de Segurança da ONU– pede ainda que o Irã dê mais detalhes a respeito dos objetivos da instalação e expressa uma “séria preocupação” de que Teerã continue “desafiando as exigências da comunidade internacional”.
O documento exige ainda a suspensão completa do enriquecimento de urânio pelo Irã.

Após a aprovação do texto, elaborado pela Alemanha e as cinco potências do Conselho de Segurança da ONU –EUA, Reino Unido, França, Rússia e China– o premiê britânico, Gordon Brown, afirmou que o próximo passo, caso o Irã não coopere, será a adoção de sanções.

“O Irã deve aceitar a proposta que foi feita [pela AIEA], para que produza energia nuclear civil com o nosso apoio, renunciando às armas. O próximo passo será a imposição de sanções, caso o Irã não reaja a essa posição bastante clara da comunidade internacional”, disse Brown em Trinidad e Tobago, onde participa de cúpula do Commonwealth.

Para Brown, a aprovação envia o “sinal mais claro possível ao Irã para que abra mão de suas ambições nucleares” e evidencia que “o mundo sabe o que eles [iranianos] estão fazendo”.

EUA

O embaixador dos Estados Unidos, Glyn Davies, disse, em entrevista coletiva após a reunião da AIEA, que a “paciência da comunidade internacional com o Irã “está se esgotando”.

“Não podemos falar só por falar, sem chegar a onde queremos chegar: a um acordo”, manifestou o chefe da delegação americana diante da AIEA.

Recentemente, o presidente americano, Barack Obama, disse que o Irã tem “pouco tempo” para começar a cooperar e aceitar a proposta da AIEA.

Ontem, o diretor-geral da agência, Mohamed ElBaradei, afirmou que a investigação sobre as atividades de Teerã teria chegado a um beco sem saída, do qual não se sairia “se o Irã não cooperar plenamente”.

Proposta

O texto vinha sendo redigido enquanto a AIEA esperava uma resposta iraniana para sua proposta de transferir a maior parte do urânio enriquecido no Irã ao exterior.

Em 21 de outubro passado, em Viena, como parte de uma reunião entre o Irã, França, Rússia e os Estados Unidos, a AIEA apresentou um projeto de acordo que permitiria a Teerã garantir a entrega de combustível nuclear para seu reator de pesquisa.

O acordo visa definir os termos do envio de cerca de 1.200 dos 1.500 quilos de urânio enriquecido a 3,5% que o país possui à Rússia, onde deve ser enriquecido até 19,75% de pureza –o suficiente para gerar energia e incapaz de produzir armas nucleares. Para fabricar uma bomba atômica, são necessários cerca de 2.000 quilos de urânio enriquecido acima de 90%.

O urânio enriquecido seria então transferido à França, onde seria transformado em combustível nuclear e depois devolvido ao Irã para uso em um reator científico em Teerã que produz medicamento para tratamento de câncer. Esse reator funcionava até agora com combustível atômico de fabricação argentina, recebido em 1993 e que está acabando.

O texto estabelece ainda a supervisão da AIEA sobre o processo.

Reação

Após a aprovação, o Irã anunciou que reduzirá a cooperação com a AIEA (Agência Nuclear de Energia Atômica).

O embaixador do Irã na AIEA, Ali Asghar Soltanieh, disse que seu país “eliminará qualquer cooperação voluntária com os inspetores da ONU” que vá além das obrigações legais.

“Vamos tentar nos restringir aos limites do acordo de salvaguarda”, disse o diplomata iraniano, minutos depois que a agência da ONU adotou a resolução contra o Irã, pela primeira vez desde 2006.

Segundo Soltanieh, a resolução “não vai interromper” o programa nuclear do Irã, e seu governo “não aplicará” o conteúdo do documento, já que se trata de uma “resolução política”.

O diplomata iraniano disse, no entanto, que seu país não se retirará do Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP).

27
nov
09

Pesquisa mostra diferença entre autodefinição de cor e genética

Marcelo Gigliotti, Jornal do Brasil

RIO – Muito se fala que todo brasileiro tem um pé na África. Mas uma pesquisa brasileira recém-concluída aponta para outra direção: muitas pessoas que se consideram ou se definem como negras ou pardas tem um pé, ou até mesmo uma perna inteira, na Europa, só que não sabem disso. A constatação é resultado de um estudo feito por pesquisadores brasileiros, entre antropólogos e geneticistas, junto a estudantes de ensino médio da cidade de Nilópolis, na Baixada Fluminense.

Por se debruçar sobre universo fechado, um grupo escolar, a pesquisa não retrata a realidade de um país tão diversificado regionalmente. Mas a intenção dos pesquisadores foi checar a reação dos alunos sobre a diferença entre como eles se autodefinem em relação à cor e sua ancestralidade genética.

A pesquisa procurou saber como os estudantes se percebiam em relação à sua cor, segundo classificações do IBGE (branca, negra e parda). Depois, foram feitos testes de DNA para checar a origem geográfica: europeia, africana ou indígena.

Ascendência

Os estudantes que se classificaram como “negros”, por exemplo, relataram, em média, ascendência africana de 63%; indígena de 20% e 17% europeia. Os testes de DNA mostraram resultados bem diferentes: a ascendência européia domina. A média é de 52% de ancestralidade européia; 41% africana, e 7% a indígena.

Os alunos que se autodefiniram como “pardos” referiram que teriam aproximadamente os mesmos índices de ancestralidade europeia (37,9%), africana (33,5%), e ameríndia (28,6). O teste de DNA, de novo, trouxe resultados com índices mais “europeizantes”: mais de 80% em média, contra a ascendência indígena (4,1%) e africana (5,6%).

Os estudantes “brancos”, que se percebiam como portadores de substancial ascendência africana (17,1%) e ameríndia (21,1%), se defrontaram com resultados de testes genéticos que, na realidade, evidenciaram muito pouca ancestralidade tanto africana (5,6%) como ameríndia (4,1%), contra 90,3% de ascendência europeia.

– A percepção das pessoas quanto à sua cor ou raça é muito diferente da realidade biológica – diz o antropólogo Ricardo Ventura Santos, na Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp), da Fiocruz, um dos coordenadores da pesquisa.

A pesquisa de campo foi feita com adolescentes do CEFET-Química, em Nilópolis,

há três anos, segundo Ventura.

– O conceito de raça, biologicamente, é superado, mas ainda tem impacto relevante sobre a dinâmica social. Tanto é que existem as políticas afirmativas, como as que reservam vagas para estudantes que se declaram negros nas universidades brasileiras – diz o antropólogo.

Estudantes pesquisados se surpreendem com resultados

No artigo que deu origem à esta reportagem, que está sendo publicado na edição de dezembro da revista americana Current Anthropology, o jornalista Kevin Stacey compila a íntegra da pesquisa brasileira. Ele selecionou trechos sobre a reação dos estudantes aos resultados. Ainda fez reflexões sobre conceitos de raça e sobre estas implicações na sociedade brasileira. O material do jornalista americano, traduzido por Ruth B. Martins, segue abaixo.

“Os alunos que se classificaram como ‘brancos’ em geral declararam-se decepcionados com os baixos percentuais para as categorias africano e ameríndio a partir dos testes de ancestralidade genômica”, dizem os pesquisadores brasileiros. Outros ficaram “desconcertados” quando verificaram que os resultados dos testes genéticos mostraram alta ascendência européia.

Alguns inclusive colocaram em um segundo plano a importância da evidência biológica.

– Apesar da elevada percentagem de ancestralidade genômica européia, não deixarei de ser negra nunca! – disse uma estudante.

Alguns estudantes levantaram temas relacionados com políticas públicas de cotas raciais para o ensino universitário.

– A minha ancestralidade genômica é 96% europeia, 1% ameríndia e 3% africana – disse um aluno. – Acho que a única coisa que muda é que eu não tenho mais a chance de conseguir a cota – ironizou.

A pesquisa brasileira traz reflexões sobre o controverso conceito de raça: “nas últimas décadas, biólogos, especialmente os geneticistas, têm afirmado repetidamente que a noção de raça não se aplica à espécie humana”. “Por outro lado”, sustentam os autores, “cientistas sociais afirmam que o conceito de ‘raça’ é altamente significativo em termos culturais, históricos e sócio-econômicos”.

Debates

Atualmente, as questões relacionadas com a temática da raça, suas concepções científicas e culturais, despertam muitos debates em todo o mundo, inclusive no Brasil. Os brasileiros se orgulham de sua ascendência miscigenada, fruto da relação histórica entre europeus, africanos e ameríndios. No entanto, nos últimos anos, as desigualdades raciais têm estimulado o surgimento de propostas de políticas que despertam controvérsias, como as cotas raciais para empregos em órgãos do governo e vagas para estudantes nas universidades públicas.

”Ao mesmo tempo“, destacam os autores, “os resultados dos estudos no campo da genética, que enfatizam a ampla miscigenação da população brasileira, têm sido divulgados nos meios de comunicação e tem desempenhado um papel importante nos debates sobre a implementação de políticas públicas baseadas em raça”.

Os alunos material colhido em raspagem das mucosas bucais, a partir da qual foram realizados testes de ancestralidade genômica, com base na análise do DNA nuclear, na UFMG. Na etapa final da pesquisa, os dados de percepção de ancestralidade e dos testes genômicos foram debatidos pelos estudantes.

”Os resultados dos testes de ancestralidade genômica são bastante diferentes das estimativas de ascendência percebidas“, relatam os investigadores. Em geral, os resultados dos testes genéticos mostraram que os alunos têm ascendência européia bem maior do que pensavam.

“Neste estudo”, escrevem os autores, “ressaltamos a importância de se melhor compreender as complexas formas de como as informações genéticas são interpretadas pelo público leigo”.

Os autores também discutem seus achados à luz das políticas públicas relacionadas às questões raciais, visando promover a inclusão social. Outro aspecto destacado pela equipe interdisciplinar de pesquisadores é quanto a necessidade de um maior diálogo entre as ciências biológicas (genética, em especial) e as ciências humanas, em torno de complexos temas como cor, raça e ancestralidade.

Autores

O estudo foi feito por sete pesquisadores, três deles da Fundação Oswaldo Cruz: o sociólogo Marcos Chor Maio, da Casa de Oswaldo Cruz, os antropólogos Ricardo Ventura Santos, da Escola Nacional de Saúde Pública, e Simone Monteiro, do Instituto Oswaldo Cruz; os antropólogos Peter Fry, da UFRJ, e José Carlos Rodrigues, da PUC-Rio; além dos geneticistas Luciana Bastos-Rodrigues e Sergio Pena, da UFMG.

A revista Current Anthropology é publicada pela Editora da Universidade de Chicago. O artigo de Ricardo Ventura Santos e colaboradores tem o título “Color, race and genomic ancestry in Brazil: Dialogues between anthropology and genetics” (“Cor, raça e ancestralidade no Brasil: Diálogos entre antropologia e genética”).

27
nov
09

DIAS SÓRDIDOS

Por Reinaldo Azevedo:

É, meus caros leitores… Encarem este post até o fim!!!

Permito-me abrir este post verdadeiramente espantoso com algo que escrevi aqui há menos de uma semana: não me interessa a vida privada de homens públicos, a menos que ela esteja em contradição com a sua pregação e com as escolhas políticas que anunciam. Dito isso, adiante.

Vocês sabem quem é César Benjamin? Então começo por sua biografia sintetizada hoje na Folha de S. Paulo:
CÉSAR BENJAMIN, 55, militou no movimento estudantil secundarista em 1968 e passou para a clandestinidade depois da decretação do Ato Institucional nº 5, em 13 de dezembro desse ano, juntando-se à resistência armada ao regime militar. Foi preso em meados de 1971, com 17 anos, e expulso do país no final de 1976. Retornou em 1978. Ajudou a fundar o PT, do qual se desfiliou em 1995. Em 2006 foi candidato a vice-presidente na chapa liderada pela senadora Heloísa Helena, do PSOL, do qual também se desfiliou. Trabalhou na Fundação Getulio Vargas, na Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, na Prefeitura do Rio de Janeiro e na Editora Nova Fronteira. É editor da Editora Contraponto e colunista da Folha.

Como se nota por sua biografia, Benjamin — conhecido por Cesinha — não é alguém por quem eu nutra qualquer simpatia ideológica. No arquivo, vocês encontrarão várias referências a ele e também à sua editora, que publica bons livros. À diferença do que dizem, sei manter divergências civilizadas com civilizados. Adiante.

A Folha publica hoje alguns textos sobre o filme hagiográfico “Lula, O Filho do Brasil”. Benjamin escreve um longo depoimento — íntegra aqui — em que narra todos os horrores que sofreu na cadeia, preso que foi aos 17 anos. Entre outras coisas, e sabemos que isto é tragicamente comum nas cadeias brasileiras até hoje, foi entregue para “ser usado” pelos presos comuns, o que, escreve ele, não aconteceu. E faz um texto que chega a ser comovido sobre o respeito que lhe dispensaram na cadeia.

Depois de narrar suas agruras, interrompe o fluxo da memória daquele passado mais distante para se fixar num mais recente, 1994, quando integrava a equipe que cuidava da campanha eleitoral de Lula na TV — no grupo, estava um marqueteiro americano importado por alguns petistas. E, agora, segue o texto estarrecedor de Benjamin sobre uma reunião.

(…)
Na mesa, estávamos eu, o americano ao meu lado, Lula e o publicitário Paulo de Tarso em frente e, nas cabeceiras, Espinoza (segurança de Lula) e outro publicitário brasileiro que trabalhava conosco, cujo nome também esqueci. Lula puxou conversa: “Você esteve preso, não é Cesinha?” “Estive.” “Quanto tempo?” “Alguns anos…”, desconversei (raramente falo nesse assunto). Lula continuou: “Eu não aguentaria. Não vivo sem boceta”.

Para comprovar essa afirmação, passou a narrar com fluência como havia tentado subjugar outro preso nos 30 dias em que ficara detido. Chamava-o de “menino do MEP”, em referência a uma organização de esquerda que já deixou de existir. Ficara surpreso com a resistência do “menino”, que frustrara a investida com cotoveladas e socos.

Foi um dos momentos mais kafkianos que vivi. Enquanto ouvia a narrativa do nosso candidato, eu relembrava as vezes em que poderia ter sido, digamos assim, o “menino do MEP” nas mãos de criminosos comuns considerados perigosos, condenados a penas longas, que, não obstante essas condições, sempre me respeitaram.

O marqueteiro americano me cutucava, impaciente, para que eu traduzisse o que Lula falava, dada a importância do primeiro encontro. Eu não sabia o que fazer. Não podia lhe dizer o que estava ouvindo. Depois do almoço, desconversei: Lula só havia dito generalidades sem importância. O americano achou que eu estava boicotando o seu trabalho. Ficou bravo e, felizmente, desapareceu.

Num outro ponto se seu longo texto, Benjamin comenta o filme sobre a vida de Lula e lembra aqueles que não o molestaram na cadeia:

(…)
A todos, autênticos filhos do Brasil, tão castigados, presto homenagem, estejam onde estiverem, mortos ou vivos, pela maneira como trataram um jovem branco de classe média, na casa dos 20 anos, que lhes esteve ao alcance das mãos. Eu nunca soube quem é o “menino do MEP”. Suponho que esteja vivo, pois a organização era formada por gente com o meu perfil. Nossa sobrevida, em geral, é bem maior do que a dos pobres e pretos.

O homem que me disse que o atacou é hoje presidente da República. É conciliador e, dizem, faz um bom governo. Ganhou projeção internacional. Afastei-me dele depois daquela conversa na produtora de televisão, mas desejo-lhe sorte, pelo bem do nosso país. Espero que tenha melhorado com o passar dos anos.

Mesmo assim, não pretendo assistir a “O Filho do Brasil”, que exala o mau cheiro das mistificações. Li nos jornais que o filme mostra cenas dos 30 dias em que Lula esteve detido e lembrei das passagens que registrei neste texto, que está além da política. Não pretende acusar, rotular ou julgar, mas refletir sobre a complexidade da condição humana, justamente o que um filme assim, a serviço do culto à personalidade, tenta esconder.

27
nov
09

Uma entrevista de César Benjamin

Por Reinaldo Azevedo:

Quanto estourou o escândalo do mensalão, César Benjamin concedeu uma entrevista a Wilson Tosta, do Estadao, em que narrava como tudo começou. Foi publicada no dia 19 de agosto de 2005:

Militante do PT de 1980 a 1995, o editor César Queiroz Benjamin, de 51 anos, situa no início dos anos 90, com a atuação do então representante da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Delúbio Soares, no Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), o início da mudança que levou o partido à atual crise. De acordo com Benjamin, com repasses do FAT para sindicatos Delúbio Soares fortaleceu a tendência Articulação, da qual fazem parte o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o deputado José Dirceu (SP), que assim dominou a máquina partidária.

Na direção do PT, conta ele, Delúbio, com aval do hoje presidente e do ex-ministro da Casa Civil, formou com outros petistas o grupo conhecido como “os operadores”, cujo objetivo prioritário era dinheiro.

“Então esse grupo consolida a sua hegemonia”, diz Benjamin, que não apresenta provas, mas alega que no PT “todos sabiam” do que ocorria. Ele deixou o partido há uma década, denunciando o que chamou de “ovo da serpente”, a entrada maciça na legenda de dinheiro de bancos e empreiteiras. Hoje, acha que suas previsões se confirmaram e avalia que Lula sabia das irregularidades. “Eu, que já estava fora do PT, sabia. Como o Lula poderia não saber?”

O senhor acha que as previsões que fez ao sair do o PT se cumpriram?
Vamos situar a saída. Na campanha de 1994, eu era da direção e da coordenação da campanha. E depois ficou claro que tinha havido uma série de financiamentos que desconhecíamos. De bancos e empreiteiras, para a campanha do Lula.

Eram financiamentos ilegais?
Do ponto de vista partidário não eram legais. Porque tanto a direção quanto a militância nunca souberam disso. Tentei discutir na direção nacional, não houve possibilidade, e resolvi levar ao Encontro Nacional do PT de 1995, que era o primeiro na seqüência da eleição. E aí ficou claro para mim que já estava havendo no PT o início do esquema que agora vem à luz, inclusive com os mesmos personagens. Eu tive a percepção de que isso continha um perigo extraordinário, que era a entrada no PT, pesadamente, de esquemas de financiamento que teriam um impacto grande na vida interna do partido. O Dirceu foi eleito para a presidência, esse grupo que agora está nas manchetes assume cargos-chave, e fica claro que o partido tinha tido uma inflexão para pior. Ser direção passava a ser gerenciar interesses. E saí, eu me lembro que no meu pronunciamento no Encontro Nacional disse que estávamos diante do ovo da serpente que ia nos devorar. Então, quando vejo essa situação atual, tenho consciência de que não começou agora e é a expressão de uma prática continuada e sistêmica, que foi introduzida através do Lula e do Zé Dirceu.

Pode-se dizer que o processo de corrupção começou em 1994?
Talvez tenha começado antes.

Quando?
Há notícias de processos semelhantes no Fundo de Amparo ao Trabalhador. Não por coincidência o representante da CUT no FAT chamava-se Delúbio Soares e se multiplicaram notícias de esquemas de financiamento heterodoxos.

O que houve?
Até essa época, a Articulação, que é o grupo do Lula e do Dirceu, ainda disputava a hegemonia no PT cabeça com cabeça. A minha interpretação é a de que esse grupo usou esquemas de financiamento heterodoxos para fortalecer a Articulação. Porque o FAT faz convênios com sindicatos. E assim fortaleceu as finanças da Articulação, que passa a manejar poder financeiro que é uma arma nova na luta. Passa a ter capacidade de financiar candidaturas, trazer pessoas, estabelecer pontes. Delúbio se tornou figura paradigmática. Foi tesoureiro da CUT, foi para o PT como tesoureiro. E esse grupo começa a ser conhecido como “os operadores”.

Quem eram Delúbio, Sílvio?
Silvio Pereira, depois Marcelo Sereno… Esse grupo estabelece influência crescente no PT e na CUT. Ser da Articulação significava fazer campanhas muito caras. E se combina com o esvaziamento da militância. Então esse grupo consolida a hegemonia. Passa a operar em vários esquemas. Santo André é um deles. Passa a procurar maneiras de levantar dinheiro. E com a chegada ao governo federal as práticas ganham escala e um potencial de crescimento e visibilidade muito maior.

E o presidente Lula nisso tudo?
O Lula garante que foi traído, que não sabia. Mas eu não acredito nisso. Foram práticas sistemáticas durante mais de dez anos, do grupo que era mais próximo do próprio Lula. Me parece completamente inverossímil que ele fosse o único a não saber. Todos sabíamos. Eu, que já estava fora do PT, sabia. Como o Lula poderia não saber?

Qual é o efeito disso?
O principal legado é que a liderança do Lula dissolveu por dentro os valores da esquerda. Se você pegar para trás, Luiz Carlos Prestes morre pobre. Nunca tínhamos tido uma liderança que disseminasse o antivalor.

O que é isso?
O grande legado do Lula é essa disseminação do antivalor. O valor da esperteza, o valor de se dar bem, de não estudar, ter orgulho de não estudar… Eu diria que o Lula sempre foi um grande guarda-chuva para os oportunistas no PT. Uma coisa é o partido ter um líder que é honesto, honrado. Então, quem quer ser picareta fica meio acuado. Pode até querer ser picareta, mas não é a regra. Outra coisa é você estar num ambiente em que veio de cima o exemplo. Então, sob a liderança do Lula, eu diria que se formou a pior geração de militantes da esquerda brasileira de toda a sua história: pragmática, oportunista, individualista, carreirista.

27
nov
09

AGÊNCIA DA ONU ACUSA O IRÃ E DESMORALIZA O GOVERNO LULA E OS ALOPRADOS DE AMORIM

Por Reinaldo Azevedo:

Depois do vexame em Honduras, depois do vexame com a visita de Mahmoud Ahmadinejad, depois do vexame de ter levado um chega-pra-lá por escrito do Departamento de Estado — assinado por Obama (estou listando só as patetices dos três últimos dias) —, Celso Amorim, o Megalonanico, o criador da teoria da “Penetração & Diálogo”, acaba de se submeter, e ao país, a mais uma desmoralização.

Ontem, o ainda diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), o moderadíssimo Mohamed El Baradei, afirmou estar desapontado com o Irã. Por quê? Porque o país não está cooperando com a agência, que tentou fazer um acordo sobre o combustível empregado em suas usinas. Até agora, sem resposta. Para Baradei, a investigação sobre o programa nuclear secreto daquele país, que teria como objetivo criar a bomba atômica, está num “beco sem saída”.

“Estou desapontado porque o Irã até agora não concordou com a proposta original nem com as modalidades alternativas. E acredito que todas elas sejam equilibradas, justas e que ajudariam a amenizar as preocupações referentes ao programa nuclear iraniano”, afirmou El Baradei. A AIE deve aprovar uma resolução CONDENANDO O IRÃ.

Pois é… Agora não são países da Europa. Agora não são os Estados Unidos. A Agência da ONU — em cujo Conselho de Segurança o Brasil anseia ter um assento permanente — é que está acusando o Irã de falta de cooperação. Na prática, isso corresponde a reconhecer que o país, à diferença do que dizem Celso Amorim e seus aloprados, desenvolve um programa nuclear secreto.

Eis aí um bom motivo para Lula não ser flagrado desfilando ao lado de tipos como Ahmadinejad. No Programa do Jô, desfiei um pequeno rosário de acusações contra o Irã — inclusive o tal programa nuclear secreto. A petralhada — que mandei para o blog que a pariu — veio como enxame: “Quem disse que é secreto? Isso é acusação dos EUA!”. Não! Quem está acusando a falta de cooperação daqueles humanistas é a ONU. E a gente sabe que Baradei não é nem nunca foi do tipo que diz o que os EUA querem ouvir. Sabe, nesse caso, o tamanho da sua responsabilidade.

Quem ignora a sua é o Brasil. Na semana em que Lula desfila ao lado de Ahmadinejad, o Irã recebe a mais dura reprimenda do órgão encarregado de vigiar o uso da energia nuclear. Lula se torna, assim, membro honorário de uma pequeno grupo de delinqüentes que defendem o programa nuclear daquele país — com um entusiasmo que nem a Rússia jamais demonstrou.

Mais uma vez, Amorim conduz o Brasil à desmoralização! Até quando?

27
nov
09

DEU A LOUCA EM PROCURADORES DO MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL

Por Reinaldo Azevedo:

Quando a gente é obrigado a dizer que alguém está sendo injusto com Paulo Maluf, isso quer dizer que a vaca já está se atolando no brejo. Vamos lá.

Confesso que jamais vi coisa tão destrambelhada. Os procuradores Eugênia Augusta Gonzaga Fávero, Marlon Alberto Weichert, Jefferson Aparecido Dias e Adriana da Silva Fernandes, todos do Ministério Público Federal, entraram com duas ações civis públicas com o objetivo de que sejam declaradas a responsabilidade pessoal de algumas autoridades e também de entidades pela ocultação de cadáveres nos cemitérios de Perus e Vila Formosa no começo dos anos 70. Quais autoridades? Maluf, hoje deputado federal (PP-SP); o atual senador Romeu Tuma (PTB-SP); Harry Shibata, ex-chefe do necrotério do Instituto Médico Legal de São Paulo; o ex-prefeito de São Paulo Miguel Colasuonno (1973-1975) e Fábio Pereira Bueno, diretor do Serviço Funerário Municipal entre 1970 e 1974.

Maluf está na ação porque foi prefeito de São Paulo entre 1969 e 1971, e Tuma, porque pertenceu ao Departamento da Ordem Política e Social, o extinto Dops, entre 1966 e 1983 — na chefia do departamento, ele ficou entre 1978 e 1983.

Deixo claro de saída. Não tenho qualquer simpatia por essas figuras. Maluf já me processou porque usei uma derivação do seu nome como sinônimo de um verbo que não se deve conjugar. Ganhei o processo. Shibata ficou tristemente famoso pela acusação de ter fraudado a necropsia do corpo de Wladimir Herzog, confirmando a versão de suicídio quando abundavam as evidências de assassinato. Colasuonno foi um bom prefeito biônico de São Paulo.

Notem bem: ainda que todos eles tivessem envolvimento pessoal com os crimes, teriam sido beneficiados pela Lei de Anistia. “Ah, Lei de Anistia não evita ação civil pública”. Bem, isso é um assunto para a Justiça. Estou com aqueles que dizem o contrário. Mas não vou debater isso agora. O que é espantoso nessa história é que todas essas pessoas estão sendo acusadas porque exerciam cargos no período em que os crimes aconteceram. Eu li a ação. A íntegra, se vocês quiserem conferir, está aqui. Basta ler o texto para perceber que o “crime” de Maluf, Tuma e Colasuanno, segundo os procuradores, foi a ligação com o Regime Militar. NÃO HÁ UMA SÓ EVIDÊNCIA QUE OS LIGUE ÀS OSSADAS DOS CEMITÉRIOS. Nada!

Os procuradores se dão ao luxo de fazer proselitismo contra a ditadura e de citar música do Chico Buarque. Ok, ok, mas cadê a evidência do crime? A maior acusação contra Maluf é que o cemitério de Perus foi construído na sua gestão. E daí? Ou, então, que uma proposta para cremar corpos de indigentes buscaria, na verdade, ocultar os corpos de perseguidos pela ditadura. Prova? Nenhuma! Evidência? Nenhuma! Tudo, reitero, ilação! Que tal pegar Maluf por crimes que ele tenha cometido, em vez de fazer embaixadinha com a galera porque, afinal, trata-se de uma figura não muito popular?

As bobagens continuam quando se referem a Tuma. O texto informa, erradamente, o que é imperdoável, que ele chefiou o Deops entre 1966 e 1983. Mentira! Ele só chegou ao comando em 1978, e não há um só testemunho que o ligue a expedientes ilegais — dada, claro, a discricionaridade do regime. Ou até há: Tuma relaxou as regras do lugar para que um hóspede ilustre, Lula, se sentisse mais à vontade… E ele se sentiu! Hoje, o delegado é base de apoio do ex-preso e tem um filho na cúpula do Ministério da Justiça. Ilegalidades foram cometidas no Dops? Foram. Sob a chefia de Tuma? Eis aí… Ninguém conhece. Muito menos há qualquer evidência que o ligue aos cemitérios de Perus e Vila Formosa.

Até as acusações contra Shibata — este, sim, enrolado no caso Herzog — mostram-se incompetentes, feitas na base de ilações. Idem para o tal Fábio Pereira Bueno. Indício de cumplicidade com os sepultamentos ilegais? Ah, ele viajou para colher informações técnicas para a cremação de indigentes, o que buscaria esconder os corpos das vítimas da ditadura… Provas? Nada!

Se as acusações são surrealistas — porque não há um miserável fato que as justifique —, as punições propostas e a forma de amenizá-las fazem crer que vivemos num estado soviético. O MPF quer que os acusados:
– percam suas funções públicas e aposentadorias;
– reparem os danos com 10% do patrimônio de cada um em favor de medidas que ajudem a recuperar a memória sobre violações de direitos humanos durante a ditadura.

Mas isso pode ser amenizado com uma espécie de mea-culpa: eles teriam de fazer declarações públicas, por escrito e meio audiovisual, sobre eventos de que tenham participado durante — atenção! — 1964 e 1985. Entenderam? Perus, Vila Formosa etc. ficaram para lá. O objetivo declarado da ação é punir “colaboradores” do Regime Militar — a causa original é mero pretexto.

Os procuradores foram fundo no que estou chamando destrambelhamento. Na outra ação, contra instituições, os demandados são a União, o estado de São Paulo, a Unicamp, a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a Universidade de São Paulo (USP) – além de legistas que trabalhavam nessas instituições. Todos teriam sido negligentes na investigação dos fatos.

Perda de tempo e dinheiro
Este blog já escreveu frases como: “Os bandidos é que testam a existência ou não do estado de direito, não os homens de bem”. Ou ainda: “Assegurar os direitos das santas é fácil; difícil é assegurar os direitos das putas”. Ao fazer considerações como essas, chamo a atenção para o fato de que a democracia e o estado de direito protegem todo mundo e devem punir as pessoas pelos crimes que tenham efetivamente cometido. Não há espaço para vingança e revanche.

Ainda, reitero, que as pessoas acusadas tivessem cometido os crimes, estariam, entendo, cobertas pela Lei de Anistia. Mas digamos que a Lei de Anistia fosse inócua nesse caso: é preciso mais do que convicção pessoal, ou do grupo, para propor uma ação civil pública. Ou se está desperdiçando o dinheiro do contribuinte. Pode-se achar que Maluf e Colausonno, como prefeitos de São Paulo, foram detestáveis. Pode-se achar que Tuma é um senadr horrível. Ligá-los aos cadáveres de Perus — a menos que os procuradores tenham outras provas — porque exerciam funções públicas durante o Regime Militar é uma insanidade.

27
nov
09

ESTUPIDEZ INESGOTÁVEL E INSACIÁVEL

Por Reinaldo Azevedo:

As horteloas e os hortelões do Itamaraty agora mudaram a plantação: pararam com as abobrinhas e resolveram plantar bugalhos. Até anteontem, o Brasil agia de modo concertado com a diplomacia americana. Assim, a visita do delinqüente Mahmoud Ahmadinejad teria sido parte dessa conspiração do bem, que, brincando, chamei aqui de “Teoria Conselhatória”… Aí Barack Obama — na verdade, o Departamento de Estado dos EUA — enviou uma carta a Lula — na verdade, ao Itamaraty — em que expressou sua contrariedade com a presença do filoterrorista iraniano no Brasil e em que deixou claro que vai reconhecer o resultado das eleições hondurenhas de 29 de novembro.

Pronto! Aí Marco Aurélio Garcia, o Top Top, estrilou, expressando toda a contrariedade do governo Lula com Barack Obama. O Brasil, disse, está muito decepcionado. A tal “combinação” foi pro beleléu.

Agora, as horteloas e os hortelões mudaram o tom, sempre obedientes ao que lhes dita mCelso Amorim e Marco Aurélio e transformaram a contrariedade do governo Lula em “advertência”. Acreditem: a palavra é esta mesma: o Brasil adverte os EUA de que as escolhas daquele país estão erradas. Não! Não é expressão de uma divergência. Estamos é dando um pito mesmo e deixando entrever até certa suspeita de ameaça. É como se o Itamaraty dissesse: “Huuummm… Ouçam-nos; vocês vão se dar mal!”

Marco Aurélio agora diz que, ao reconhecer as eleições de Honduras, os EUA estão condescendendo com a tese do golpe preventivo. Ahhhnnnn… Sempre isso! Todos sabemos que, em Honduras, deu-se um contragolpe. Golpista era Manuel Zelaya, coisa comprovada por A mais B. Deu-se em Honduras o que não se deu na Venezuela, por exemplo: à primeira tentativa de estuprar a Constituição, as forças democráticas reagiram e botaram o golpista pra fora. Quais forças democráticas? Uniram-se a esmagadora maioria da população, o Congresso, a Justiça, o Ministério Público e os militares.

Sim, Marco Aurélio tem razão, embora esteja do lado errado. Os democratas do resto do continente já sabem o que podem e devem fazer para conter os golpistas populista-bolivarianos: DEPOSIÇÃO. E sem fazer a bobagem de tirá-los do país. O negócio é CANA, COM O DEVIDO PROCESSO LEGAL.

A delinqüência legal da argumentação de Marco Aurélio é tal, que ele chega a dizer que a decisão da Corte Suprema de Honduras sobre a legalidade ou não da deposição de Zelaya é “irrelevante”. Sendo assim, Garcia não reconhece Honduras como um país: seria mero objeto passivo do concerto internacional.

A estupidez dessa gente é inesgotável e insaciável. Quem sabe a ficha do Departamento de Estado dos EUA esteja começando a cair. Não que eu confie muito na turma. Mas há uma possibilidade.




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